Cuidar do meio ambiente é, para mim, um compromisso de vida, um ministério. Não um ministério no sentido eclesiástico ou teológico, mas um ministério que tem suas raízes no cristianismo.
É claro que falar de fé cristã e meio ambiente não é tarefa simples. Minha formação acadêmica é em história. Não sou teóloga. Como muita gente, eu me converti ao cristianismo pela dor. Tinha sofrido contaminação com mercúrio, que estava me fazendo perder a visão, a capacidade de movimentos, a memória matemática e espacial.
Ao converter, meu desejo era carregar comigo, durante todo o tempo, a minha Bíblia. Mas, por ter um grave problema de visão, tive que optar por uma Bíblia de letras grandes e minhas filhas me criticaram, dizendo que aquela era uma Bíblia usada por idosos. Fiz, então, o design dessa Bíblia produzida em couro vegetal, que levo sempre comigo.
Muitas vezes, nas igrejas, nós temos a idéia de que os ambientalistas, os que defendem o meio ambiente, são pessoas que prestam culto à natureza ou que fazem isso porque têm alguma participação em movimentos esotéricos. É claro que isso pode acontecer. Mas a defesa do meio ambiente para nós, cristãos, não é uma questão política, ou utilitária; é uma ordenança divina.
Quando me converti, comecei a ver a Bíblia com outros olhos. Passei a ver exatamente o que havia de ensinamento para o meu trabalho. Eu era senadora, lidava com temas como meio ambiente, direitos humanos, educação, questão social, violência...
O texto de Isaías 11:6 (“O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito...”) sugere que haverá uma vida em que naturezas aparentemente opostas se encontrarão. Isso tem um sentido espiritual.
Certa vez, ouvi o pastor Jessé Jackson dizer que o meio ambiente é o primeiro espaço, a primeira casa, o primeiro ethos, onde essa profecia se cumpre. Sabem por quê? Porque o lobo precisa de água potável, o cordeiro também. O lobo precisa de alimento; portanto, tem necessidade de terra fértil. O cordeiro também precisa dela. Se pensarmos que ambos precisam do ar puro para que possam respirar, vamos perceber que tanto os países ricos como os países pobres, na questão do uso de recursos naturais, têm de estar praticamente no mesmo espaço.
A Bíblia nos apresenta várias passagens nas quais encontramos Deus se reportando à questão do cuidado com a natureza. Uma delas está em Gênesis 2:15: “Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no Jardim do Éden para o cultivar e guardar”. Nesse mesmo versículo, o Senhor acrescenta: “para o cultivar e guardar”. Guardar, no sentido de cuidado, zelo. Por que cultivar? Porque a terra era e permanece sendo algo como um jardim abundante, com toda espécie de animais, de frutos...
Quando desrespeitamos a natureza, não utilizamos de forma sustentável os rios, as florestas, o solo, o ar, aquilo que é necessário para a vida no planeta, demonstramos a falta de importância dada às gerações futuras, transmitindo a idéia de que nós precisamos extrair tudo agora porque pensamos apenas, no máximo, nos nossos netos. Essa é uma visão completamente fora do propósito de Deus na relação do homem com a natureza.
Abraão também nosso apresenta um interessante testemunho, pois foi enviado para uma terra que não conhecia, a fim de ser pai de uma grande nação, uma geração tão grande que nem poderia ser contada. Ele se preocupou com as gerações futuras. Esta é uma parte muito bonita na Bíblia: “Plantou Abraão tamargueiras em Berseba e invocou ali o nome do Senhor, Deus Eterno”. (Gênesis 21:33).
Quantos anos tinha Abraão quando plantou aquele bosque de tamargueiras? 80 anos? 100 anos? Por que um homem de idade tão avançada haveria de se preocupar em plantar um bosque de tamargueiras, se ele não comeria do fruto daquelas árvores, não usaria as suas sombras para descansar? Ele plantou as tamargueiras simbolizando a sua aliança, o seu cuidado com as gerações futuras.
Há vários momentos na Bíblia em que Deus nos ensinam claramente a respeito do cuidado com a natureza. Ainda no Pentateuco, na elaboração da Constituição do povo judeu, ele nos chama a cuidar do meio ambiente. Em Deuteronômio 26:6, ele nos ensina a cuidar dos animais, quando diz: “Se de caminho encontrares algum ninho de ave, nalguma árvore ou no chão, com passarinhos, ou ovos, [...] não tomarás a mãe com os filhotes”. Matar a mãe com os filhotes é comprometer a reprodução de animais. E, comprometida a sua reprodução, as espécies entrarão em extinção.
Deus é cuidadoso, também, com as espécies, com a variedade de alimentos. No mesmo capítulo de Deuteronômio, no versículo 9, Ele proíbe a mistura de diferentes espécies de sementes, para que não seja profanado o fruto da vinha. E, no versículo 8, do mesmo capítulo, o Senhor nos ensina a segurança no trabalho: “Quando edificares uma casa nova,, far-lhe-ás, no terraço, um parapeito”. Sempre que eu passo na frente de construções que têm aqueles tapumes de proteção, eu me lembro dessa passagem, pensando em como Deus , já naquele tempo, recomendava que se colocasse a proteção, para se evitarem os acidentes e, segundo Ele, não houvesse “culpa de sangue”.
Há muitas outras passagens em que Deus fala a respeito do cuidado com a natureza, mas estas são suficientes para despertar e incentivar os cristãos a refletirem sobre sua atuação nesse aspecto.
É claro que o homem foi feito para cominar o meio ambiente. Mas, tomemos como exemplo o domínio divino. Por acaso, o domínio de Deus é tirano? Por acaso, é descuidado? Por acaso, é irresponsável? Não. O domínio de Deus é perfeito. E se Ele fez o homem à sua imagem e semelhança e lhe disse que deveria dominar a terra e tudo o que nele há, é no seu referencial e não no referencial humano, utilitarista, oportunista e, muitas vezes, exclusivista, que o homem deve dominar a natureza. Tenho certeza absoluta de que o nosso país pode ser ricamente abençoado. Oremos por isso.
Nossa fé deve caminhar segundo a vontade de Deus. Deve ter sempre como alvo a edificação. Deve ser coerente com o nosso desejo de que os governantes não busquem a sua própria prosperidade, mas estejam interessados em conhecer e buscar o cumprimento dos propósitos de Deus para o país. Com certeza, isso resultará na alegria do povo e no júbilo divino.
Peço que orem por mim, que orem pelos nossos governantes; para que não cometamos erros e, se os tivermos cometido, sejamos capazes de nos corrigir e passar a evitá-los.
O Ministério do Meio ambiente está trabalhando com políticas integradas, controle social, desenvolvimento sustentável, fortalecimento da política ambiental, e a questão de uma política que contemple os vários segmentos da sociedade. Não tenho dúvidas de que a igreja pode ajudar.
Eu até penso que poderíamos encetar um grande movimento, dentro das igrejas, chamado “Jubilei Ambiental”. Todos aprenderiam que o cuidado com o meio ambiente não é responsabilidade só dos ambientalistas, mas de todo cristão. Deus nos colocou no jardim não só para cultivá-lo, extrair dele o nosso sustento, mas também para cuidar dele.
Marina Silva
Ministra do Meio Ambiente
Fonte: Revista Ultimato Nº 294
Artigo: Fé cristã e meio ambiente
at Posted under Labels: Meio Ambiente
Aquecimento global: refletir para agir
at Posted under Labels: Aquecimento Global, Meio Ambiente
Solange C. Mazzoni-Viveiros
A forma como o ser humano tem se relacionado com o ambiente bem como seus reflexos — por exemplo, a poluição, o desmatamento, a destruição da camada de ozônio, o efeito estufa, o aquecimento global — têm sido exaustivamente discutidos e publicados em diferentes meios de comunicação, acadêmicos e populares. Nota-se, porém, que o esforço do meio científico e da mídia em esclarecer os mecanismos envolvidos nessa crise e alertar sobre possíveis desastres, embora gere conscientização, resulta em poucas ações por parte de cada indivíduo que demonstrem real convicção de que é preciso mudar de estilo de vida.
A emissão de gases de efeito estufa, que retêm o calor do sol junto à superfície terrestre e, quando em grande quantidade na atmosfera, causam o aquecimento global, é um exemplo dessa consciência desvinculada da prática. Poucas pessoas estão dispostas a abrir mão de facilidades e confortos para reduzir tais emissões e minimizar seus efeitos sobre o clima do planeta, seja do carro à base de petróleo como meio particular de transporte, do alto consumo de energia não renovável, da utilização de produtos descartáveis não biodegradáveis, entre outros.
O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, em seu relatório de 2007, afirma que 90% das alterações ocorridas no meio ambiente são resultado da ação humana. Ressalta, ainda, que aquecimento global não significa apenas alteração na temperatura atmosférica e troposférica, com efeitos no clima e no padrão de distribuição das chuvas e ventos, causando desertificação, derretimento de geleiras, aumento de ciclones tropicais. O aquecimento global resulta, também, em alterações significativas no funcionamento dos sistemas terrestres, com previsão de perda de biodiversidade e aumento na ocorrência de doenças e catástrofes.
A palavra de Deus alerta que a fé sem obras é morta (Tg 2.17-26), que a convicção não pode estar desvinculada da prática. Seria muito mais fácil se pudéssemos ficar somente com a primeira! Porém, o Deus em quem cremos é Jesus Cristo (Hb 1.3a), o Verbo encarnado, que se humanizou para salvação do ser humano e de toda a criação (Jo 1.14; Rm 8.1-2), que partiu para a ação visando à restauração integral do homem e da natureza. A igreja, por ser o corpo de Cristo, deve se parecer com ele e, como ele, transformar o caos atual através do amor e da misericórdia. Como filhos de Deus, devemos refletir o seu caráter, como novas criaturas que acreditam na ressurreição integral, por meio de Jesus Cristo. Devemos fazer diferença hoje e, assim, anunciar nossa esperança no futuro (1Pe 1.3). Isso é missão integral, boas novas que envolvem ação e restauração do relacionamento com Deus, com o próximo e com a criação. Deus confiou sua criação ao homem, para que ele a guardasse e cuidasse (Gn 2.15); cumpre ao novo homem retomar seu projeto original (2Co 5.17-20).
Discorrer sobre aquecimento global ou qualquer assunto relativo aos impactos ambientais no meio cristão é necessário. No entanto esse conhecimento desvinculado da consciência de que há uma dívida de amor com o próximo (Rm 13.8) e uma responsabilidade com a criação (Rm 8.19-23) não trará resultado algum. Somente o amor a Deus, ao próximo e à criação pode transformar nosso egoísmo em ações de misericórdia, que mudam condutas e costumes para a glória de Deus e para a garantia de vida em abundância desta e de futuras gerações (Cl 3.12-17). A igreja só cumprirá sua missão integral quando refletir e agir, cumprindo o papel de mordomo (Gn 1.27- 2.1; Gn 2.15) e de sacerdote (1Pe 2.9) para que o mundo conheça o verdadeiro Deus a quem servimos (Jo 17.22-23; Ef 5.1-2; Sl 19.1-4).
“E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando a Ele graças a Deus Pai” (Cl 3.17).
Links para pesquisa e leitura
www.arocha.org
www.bioneotropica.org.br
www.comciencia.br
www.ecolatina.com.br
www.ipcc.ch
www.tearfund.org/Campaigning/Climate+change+and+disasters/
www.wikipedia.org/wiki/IPCC
lba.cptec.inpe.br/lba/site/
tilz.tearfund.org/Portugues/Passo+a+Passo+61-70/Passo+a+Passo+70/
Template by Themes Blogger
