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Pastor Disfarçado

from Igreja Emergente by Sandro

Um pastor se vestiu como um mendigo e invadiu o culto de sua igreja, no País de Gales, numa tentativa de dar uma lição sobre “tolerância” aos fiéis.
O Reverendo Derek Rigby, da Igreja Metodista Trinity, na cidade de Prestatyn, colocou uma peruca, roupas sujas, não se barbeou por três dias e desenhou algumas tatuagens pelo corpo antes de entrar na igreja com latas de cervejas e seringas.

Rigby, um ex-policial, havia avisado aos fiéis que chegaria atrasado para o culto e contou o plano apenas a um dos funcionários da igreja, para que ele pudesse interceder caso a congregação resolvesse chamar a polícia.

O pastor contou que foi ignorado pela maioria dos fiéis, enquanto alguns pediram que ele se retirasse do lugar.

Rigby permaneceu disfarçado até as crianças irem para a escola dominical antes de andar até o altar e mostrar sua identidade aos fiéis, que se sentiram “envergonhados”.

“Ninguém ficou irritado comigo, mas ficaram chocados por terem me ignorado da forma como fizeram”, afirmou. “Eles podiam ter me dado um copo de café.”

Segundo Rigby, sua intenção era “transmitir uma mensagem séria sobre tolerância, de uma forma emotiva”.

Durante o sermão proferido após revelar sua identidade, o pastor citou o exemplo dos discípulos que não reconheceram Jesus na estrada para Emaús depois da ressurreição.

“Eu fiquei surpreso, não desapontado. Algumas pessoas me disseram que se eu estivesse ali, como pastor, saberia o que fazer para lidar com a situação”, afirmou o sacerdote.

O Reverendo Derek Rigby conta ainda que já havia feito a mesma coisa em igrejas de Newport e Londres, onde, segundo ele, os fiéis foram mais generosos.

“Eu disse à eles que eram mesquinhos porque em outros casos já ganhei dinheiro, um pacote de bolachas e um cobertor. Em Prestatyn, eu não ganhei nada”, conta.

“No entanto, acho que isso não irá acontecer novamente”, finalizou o sacerdote. (Fonte: Globo 10/07/2008)

O Mestre invisível

Que modelo de carro Jesus dirigiria? A campanha está nas ruas, nos Estados Unidos, em comerciais de televisão e cartazes espalhados por estações do metrô. "Escolher um carro merece uma reflexão cristã. Essa decisão tem menos a ver com mecânica do que com ética, obediência, caridade e amor ao próximo", diz o texto de um dos cartazes da campanha que conclama os americanos a comprar modelos de carro que poluam menos, pois eles "têm um enorme impacto sobre todas as criaturas do Senhor". Financiada pela Rede Ambiental Evangélica, a campanha usa explicitamente um versículo do Novo Testamento, "Ama o próximo como a ti mesmo", para tornar sua mensagem ecológica mais eficiente. A filosofia de Jesus Cristo, mais de 2.000 anos depois de sua existência, narrada pelos evangelistas, é ainda a mais poderosa compilação de ensinamentos morais, normas de conduta e exemplos de vida a influenciar o cotidiano dos povos civilizados do planeta – seja qual for sua cultura. De forma infinitamente mais sutil que a campanha ambiental dos evangélicos americanos, Jesus está presente mesmo aonde a hierarquia religiosa das denominações cristãs não chegou.

"Acho um equívoco dizer que Jesus olharia determinado problema moderno dessa ou daquela forma, seja a pobreza, seja a globalização", disse a VEJA o padre George Coyne, jesuíta e astrofísico de renome internacional que dirige o Observatório Astronômico do Vaticano. "Mas os ensinamentos de Jesus estão na raiz da busca de soluções para todos os grandes dilemas modernos." É possível discernir no mundo contemporâneo um Jesus invisível em movimentos sociais e políticos, em filosofias racionais e em rituais aparentemente mais afeitos ao paganismo. Jesus está presente até mesmo onde se enxerga apenas o ateísmo. Está presente, quando não no nascimento, na prática de outras religiões que competem com ele pela salvação das almas, como é o caso do islamismo e do hinduísmo. A religião fundada por Maomé no século VII tem como um de seus pilares os ensinamentos do cristianismo. Mesmo precedendo Jesus em dois milênios e a despeito de uma riquíssima e original literatura teológica, a prática religiosa dos hindus modernos reverbera muito o cristianismo. "O Mahatma Gandhi foi buscar nos primórdios do cristianismo a idéia da resistência pacífica com que venceu o domínio inglês na Índia, que já durava três séculos", escreveu o estudioso David Flusser, morto há dois anos. A essência do pensamento de Gandhi está na adaptação para a luta política de libertação do ensinamento cristão de oferecer a outra face.

As primeiras lutas sociais do fim do século XIX eram movidas a cristianismo, uma raiz tão forte que mesmo o ateísmo marxista não conseguiu destruir em 75 anos de comunismo na União Soviética e seus satélites. "A utopia igualitária de Che Guevara, sua ética da renúncia, sua disciplina doutrinária são claramente manifestações cristãs, embora sua violência seja imoral", escreveu o historiador americano Peter Gay. Diversas organizações de esquerda no Brasil nasceram nas naves das igrejas, protegidas da vigilância policial e embebidas em ensinamentos cristãos. Ali se valeram da simpatia dos clérigos, em parte pela nostalgia de poder dos tempos em que a Igreja se confundia com o Estado, mas também pelo apego dos curas ao papel de revolucionário político atribuído por alguns deles a Jesus. O Partido dos Trabalhadores foi uma dessas organizações. Um dos tripés do PT foi a chamada Teologia da Libertação – os outros dois foram os movimentos sindicais e os de intelectuais. Historicamente, a colaboração entre esquerdistas e cristãos não foi produzida apenas pelo apego mútuo às utopias. Os políticos sempre encontraram no cristianismo um elemento mobilizador de massas.

Gerações de carolas esconjuraram o movimento hippie. O festival de Woodstock, realizado em 1969, nos Estados Unidos, uma espécie de apresentação de gala do hippismo ao mundo, pode ser visto apenas como uma orgia movida a drogas e rock'n'roll. Woodstock, com sua filosofia de "paz e amor", pode também ser interpretado como a revitalização pelos jovens de antigos ensinamentos cristãos. O escritor jesuíta Jack Miles identificou na famosa celebração musical hippie diversos preceitos de Jesus. Entre eles: "Quem estiver sem pecado atire a primeira pedra" ou "Não julgueis para não serdes julgado" e, principalmente, quando se pensa na tonelagem de drogas consumidas naqueles três dias, "O que entra pela boca não torna o homem impuro, mas sim o que sai". Podem-se identificar aforismos cristãos nas bandeiras de lutas pelos direitos humanos e nas pregações ecológicas atuais. Jesus está presente quando se buscam razões para condenar o trabalho infantil ("Vinde a mim as criancinhas, pois é delas o Reino dos Céus"). As palavras de Jesus ecoam na formulação e na aceitação universal dos direitos do homem, nas campanhas contra a fome, nos movimentos de voluntariado e nos pedidos de desculpas formais aos selvagens cujas terras foram tomadas pelos colonizadores europeus. Estudiosos lembram que todo o racionalismo anticlerical da Revolução Francesa foi feito, paradoxalmente, em nome de uma filosofia derivada diretamente de Jesus: "liberdade, igualdade e fraternidade".

O inglês Edward Gibbon (1737-1794), talvez o maior historiador de todos os tempos, escreveu seu famoso livro A História do Declínio e da Queda do Império Romano, sobre a constatação fundamental de que o cristianismo amoleceu a espinha dorsal da Roma guerreira. Gibbon estudou o Império Romano do segundo século da era cristã até o que ele considera seu último suspiro, em 1453, ano em que Constantinopla caiu em mãos dos turcos-otomanos. Para a maioria dos historiadores, o Império Romano ruiu 1 000 anos antes, quando o imperador Romulus Augustulus foi deposto pelos bárbaros godos, no ano 476. Isso importa pouco na argumentação de Gibbon. O vital nela é a idéia de que, ao aceitar Jesus, os terríveis legionários romanos se enfraqueceram, "deram a outra face", passaram a "amar os inimigos" e desistiram de "ajuntar tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem". A persistência de Jesus pelos séculos e pelas mais distintas formas de organização social tem sua raiz nesse momento registrado pelo inglês Gibbon. Ele não explica totalmente as razões do crepúsculo dos conquistadores que antes dominaram o mundo, do Golfo Pérsico ao Norte da África e quase toda a Europa, incluindo onde hoje ficam Inglaterra e Alemanha. Mas ajuda a entender de onde o cristianismo tirou a força de uma filosofia que atravessaria mais de vinte séculos. Esse poder vem da originalidade absoluta para aqueles tempos da proposição básica de Jesus: a paz e o amor ao próximo. "O cristianismo operou uma ruptura completa. Primeiro, ao propor que a orientação moral e ética deveria tomar o lugar da força. Em seguida, deu outro choque ao mostrar que para os bons de coração a morte era apenas o começo da vida eterna", diz Jack Miles. A humanidade passou a girar em torno desses conceitos poderosamente simples, ora negando-os, ora aceitando-os como verdade revelada, ora tentando prová-los com os recursos da razão e da ciência. Ao pôr a perder o Império Romano, na visão de Gibbon, Jesus operou sua maior conquista, a do mundo.

Veja, Edição 1.783 - 25 de dezembro de 2002

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